A Ironia Do Fim Do Amor.
Ontem estive até às tantas a conversar com uma pessoa querida sobre a ironia do "fim" do Amor.
A verdade é que mesmo que as histórias sejam completamente diferentes há sempre pontos muito comuns na base dos argumentos. Como se as vidas fossem livros ou filmes e os males e as dores se encontrassem.
Aquele momento horrível em que nos tiram o chão. Estávamos tão tranquilamente ( e geralmente é mesmo esse o problema ) a viver uma relação e afinal... não sabem se gostam de nós, não têm a certeza do que sentem, quiseram ir ali ver se com outra pessoa era melhor. E a outra parte ( nós ) fica super confusa, baralhada e sem perceber muito bem em que momento é que aquilo aconteceu ou o que poderia ter feito para evitar isso.
A culpabilização pode ser silenciosa, mas acontece quase sempre. É naquele momento em que voltar para trás não é opção que descobrimos exactamente o que devíamos ter feito de diferente. Ou que concluímos - na hipótese que me é mais familiar - que fizemos tudo o que podíamos e que nos contrariámos tantas vezes em vão.
Abreviando um processo de desgaste muito sofrido : choramos até fazer ferida, perdemos a esperança, a vontade, perdemos o norte, as certezas e em ultima análise : perdemos o que queríamos para a vida.
(Este resumo é muito gentil. Geralmente a angustia e a dor são inenarráveis e é por isso que mais vale contá-la assim... numa frase. )
E depois há um dia - situação que acontece em 90% dos casos e cujo intervalo de tempo pode demorar dias, meses ou anos caso "nós" não tenhamos feito nada de errado - que a outra parte descobre que afinal o que sente por nós é Amor. Todas as duvidas, experiências ou incursões noutras vidas foram confirmações absolutas de como éramos o melhor que poderiam ter. Ou o que queriam mesmo.
É no dia em que o que mais queríamos acontece que tudo deixa de acontecer em nós. E a ironia que há aqui?
Abdicámos e cedemos tantas vezes quando tudo estava bem, sofremos quando tudo ficou errado, e quando o universo nos decide compensar com a confirmação que nunca queríamos que tivesse sido dúvida.... deixamos de sentir.
Quando a conclusão é essa vive-se depois de uma de várias formas : ou com uma culpa sem sentido, ou com uma angustia estranhíssima, ou encolhe-se os ombros e continua-se a viver e pensamos : azar.
Não o nosso, claro. Nem da outra parte.
É que continuar a tentar vivendo com essa certeza é pura e simplesmente : adiar a conclusão e prolongar o sofrimento.
Reparem : é a vida.
E é óbvio que só a distância emocional me deixa abordar o assunto com a leveza a que me permito.
Mas a alternativa é vivermos bloqueados por uma culpa que não me/nos pertence.

