Eu escolhi sentir.
Tenho uma sensibilidade artística demasiado evidente.
Isto não é uma virtude, nem sequer é uma espécie de auto valorização. Quando falo em sensibilidade não digo que sou uma virtuosa que reconhece ao primeiro contacto uma obra prima.
Sou simplesmente uma pessoa que reage emocionalmente - que resultam em reacções físicas - a objectos artísticos.
Choro quando ouço algumas pessoas cantar, quando vejo alguns espectáculos, com muitas das coisas que leio... Raramente é de tristeza. É mais uma reacção "ao belo" e isso é difícil de explicar. Arrepio-me quando vejo certas atitudes, acontecem pequenos tremores de terra dentro de mim quando sou confrontada com certos momentos.
Quando uma voz mexe comigo... os olhos enchem-se de àgua. Não é sequer uma coisa que consiga controlar ou provocar. Acontece.
Isto não é mau. É só complicado algumas vezes, porque chega a ser pouco confortável. Para mim e para os outros.
Perder esta sensibilidade não seria difícil. Bastaria conhecer quem está por trás do que provoca essas emoções. Mas não quero, é das poucas coisas da vida a que me permito o encanto, apesar de saber que pertence a uma realidade que não é a do nosso mundo.
Tenho o exemplo prático de uma quantidade simpática de prosa que me partiu o coração, que me atirou ao chão, me fez feridas nos olhos, me fez sair de mim e entrar naquela dor, ou permitir que aquela dor entrasse em mim e a vivesse como fosse a minha. E depois a verdade de ter conhecido quem estava por trás daqueles sentimentos, daquela manipulação sentimental - que é a arte - e compreender no fim que sendo ou não real a história ( o que importa se é ou não verdade? é uma história. ) conhecer a pessoa que escreveu aquilo, a que venerei à distância considerável que separa o leitor do escritor, foi também o momento que conheci e entendi que aquele Ser Vivo em nada correspondia ao ideal sensível que construi na minha cabeça.
E foi aqui que no meu caminho apareceu a bifurcação : ou seguia a via do encanto e me continuaria a emocionar, ou compreendia que por trás de todas as manifestações artísticas está um ser humano que não corresponde ao que projectei/projectámos o que arruinaria qualquer hipótese de compaixão.
E decidi. Decidi que é bem melhor chorar com as letras, arrepiar-me com os sons, rir com as sensações, lidar com as identificações. Nunca pensando que por trás disto tem de existir uma realidade, ou um emissor que encerre em si a verdade que me mostra.
O que importa isso?
Só importa o que eu quiser. Nisto posso ser irracional.
A arte pela arte. E o artista enquanto artista. Nunca enquanto pessoa.
Lamento... mas o artista enquanto pessoa destrói tantas demasiadas vezes o objecto.

